
Maimônides – ícone de Córdoba
A vida de Maimônides
Adiante, um breve resumo sobre a vida e a obra do principal rabino desde Moisés, Moises Maimônides e o 1º capítulo do livro Guia dos Perplexos II: Os Princípios Sagrados, escrito por Maimônides II.
Moises Maimônides (em hebraico, Rabbi Moshe ben Maimon) nasceu em Córdoba, na Espanha, provavelmente no dia 30 de março (porém não se sabe se foi em 1135, 1137 ou 1138); e faleceu no Egito em 13 de dezembro de 1204. Ficou conhecido como Rambam, as iniciais de seu nome. Rambam foi filósofo, rabino, astrônomo e médico, tendo sido extremamente bem-sucedido em todas essas áreas.
Maimônides ou Rambam foi obrigado a fugir de Andaluzia com sua família quando era adolescente, devido à expulsão dos judeus que não haviam se convertido ao islamismo radical do Califado Almóada, que tomou Córdoba em 1148. Durante doze anos, sua família vagou errante pelo sul da Espanha como nômade até se estabelecer em Fez, no Marrocos.
Em 1165, ele precisou fugir do Marrocos, pois foi condenado à morte, e passou por Israel até se instalar definitivamente no Egito; ou seja, provavelmente conheceu bem a religião islâmica e pouco o cristianismo.
Maimônides era filho de Rabi Maimon, e é tido como descendente de uma longa linhagem de juízes (Dayan), remontando a Rabi Yehuda Hanassi, o autor da Mishná – sábio que havia atingido a perfeição moral e intelectual, e que, por sua vez, seria descendente direto da casa real de Davi.
Rambam era vegetariano, fazia jejum com bastante frequência e desenvolvia trabalhos comunitários e sociais quase que diariamente; porém, mesmo sendo constantemente demandado por seus conselhos e suas consultas, amava louvar a Deus em silêncio e orar com devoção ao Divino.
Maimônides morreu em Fostat (ou Cairo) e foi enterrado em Tiberíades, em Israel (ou pelo menos teve seus restos mortais enterrados nessa cidade).
Sua grande genialidade lhe rendeu um mausoléu com um escudo de Davi de trinta metros e a frase adiante, que mostra o respeito que os judeus rendem ao grande rabino:

Inscrição na tumba de Maimônides. Fonte: fotografado pelo autor.
Tradução para o português:
Aqui se encontra a grande águia.
Grande no Torá, sabedoria, razão e medicina. Aquele que curou os reis
de carne e sangue. Autor de “A Mão Forte” (Mishnê Torá).
Nosso Mestre Maimônides pode descansar em paz.
De Moisés a Moisés, nunca houve ninguém como Moisés!

Entrada do Mausoléu de Maimônides em Tiberíades. Fonte: fotografado pelo autor.
Capítulo 1: O Guia dos Perplexos

Maimônides
Receba o Guia dos Perplexos II: o caminho sagrado e os novos princípios, com vistas a se aproximar do Divino e fugir dos caminhos do que se convencionou chamar de pecado.
Um guia não somente para os judeus, mas principalmente para budistas, pagãos, cristãos, muçulmanos, espíritas e ateus. Esta obra propaga o respeito aos diversos caminhos, mesmo aqueles que não levam à evolução, pois honra o livre-arbítrio. Porém, apresenta o único caminho para a iluminação e para a salvação.
O Guia dos Perplexos II: o caminho sagrado e os novos princípios não é um livro de julgamento; não julga os corruptos nem os idólatras.
1.1 Guia dos Perplexos e a iluminação de Maimônides
O homem foi criado por Deus para ser livre, para conhecer o que quiser e agir da forma que bem entender. Mas Deus, através de sua providência, conhece também o futuro das ações humanas. Essas duas coisas – o homem é livre e responsável por seus atos e Deus já tem predeterminado o futuro – podem parecer contraditórias. Em Maimônides, contudo, elas são conciliáveis. Em que medida se dá essa conciliação é o que não sabemos e abordamos nesta obra. Seria o livre-arbítrio mais relevante que eventual predestinação? Seria o ser humano capaz de alterar o que está escrito?
Moses Ben Maimon dedicou sua vida ao estudo da Torá e se viu como o continuador da obra de Moisés, tendo posto toda a sua inteligência para tratar das questões morais mais complexas para a humanidade de sua época.
Os 10 mandamentos de Moisés tornaram-se 613 para Maimônides. Seria o segundo o primeiro redivivus? Nunca o saberemos: o legado de ambos é inegável para a história da humanidade. Mas, de acordo com Kraemer (2009, p. 165), Maimônides se via constantemente como o novo Moisés.

Torah do Muro da Lamentação, Israel. Fotografado pelo autor.
Maimônides discutiu amplamente o poder da profecia, a natureza das leis orais e as questões éticas. As leis orais teriam sido reveladas diretamente por Deus a Moisés no Monte Sinai, juntamente com os Dez Mandamentos. Maimônides conseguiu se posicionar entre a preservação das tradições e o progresso. Foi a ponte entre o antigo hebreu e o grego moderno.
O conteúdo do livro Guia dos Perplexos está preguiçosamente resumido a seguir, apenas com o intento de que a leitura deste livro seja possível dentro de seu contexto, sem desejar substituir a leitura do original, que se faz totalmente necessária:
- linguagem bíblica e hermenêutica;
- atributos divinos;
- criação versus eternidade;
- profecia;
- providência;
- mandamentos;
- perfeição humana.

Capa de Guia dos Perplexos. Fonte: MAIMÔNIDES (2018).
Em seu livro sobre Maimônides (The life and world of one of civilization’s greatest minds), Joel L. Kraemer (2008)destacou como este recomendava a resistência passiva contra o poder opressor.
E nós carregamos suas humilhações e suas falsidades e seus absurdos que estão além da capacidade humana de suportar, e se tornaram como nas palavras do profeta. Mas eu sou como um surdo homem que ouve. Como os sábios (que a memória deles seja abençoada) nos instruíram para não levantar falso testemunho. (…) Nós treinamos nós mesmos para sustentar sua humilhação. (…) Nós preferimos a paz com eles, mas eles preferem conflitos e guerras conosco, como David disse, sou toda a paz, mas como falo, eles são sempre de guerra. Quantas vezes nos vemos nos lançando para a perdição reivindicando a soberania sobre eles por coisas sem sentido e por absurdos? (MAIMÔNIDES apud KRAEMER, 2008, p. 242).
O conselho de Maimônides, então, era permanecer passivo diante de uma provocação, como os profetas e sábios aconselharam.
O Guia do Perplexos começa com um poema do autor sobre a grande missão a que sua obra fora destinada:
Meu conhecimento é apontar para o caminho, pavimentar a estrada direta.
Eis que todos os que se desviaram do campo da Torá vêm seguir seus passos.
O impuro e o tolo não o passarão; devem ser chamados para o Caminho Sagrado (MAIMÔNIDES, 2018, p. 26).
O Guia termina com um poema do autor sobre a busca divina pelos seres humanos; são 26 palavras em sua língua original, um tetragrama com o inefável nome de Deus (YHWH), sendo Y = 10, H = 5, W = 6, H = 5, logo: 10 + 5 + 6 + 5 = 26.
Até o próprio mausoléu de Maimônides tem este número: 1026.
Maimônides acreditava que Deus está muito perto de todos os que o chamam. Se o chamam de verdade e não têm distrações, Ele é encontrado por todos os que o buscam, e marcham em sua direção e não se desviam.


Maimônides Heritage Center, Tiberíades, Israel.
1.2 A caridade como meio de redenção
Kraemer (2008) mostra que Maimônides embelezou seu código de lei com passagens líricas e poéticas, para tornar a caridade inspiradora e memorável para o leitor:
Devemos ter mais cuidado na caridade do que em qualquer outro trabalho positivo, pois a caridade é a marca do homem justo que é da semente de nosso pai Abraão. O trono de Israel não pode ser estabelecido, nem a verdadeira fé se levanta, exceto através da caridade, e Israel não será redimido, exceto através da prática de caridade. Aquele que tem compaixão sobre os outros, outros terão compaixão sobre ele (MAIMÔNIDES apud KRAEMER, 2008, p 15.).
Maimônides ensinou que a caridade começa em casa. Nós devemos suportar o crescimento de nossos filhos e filhas, a quem somos obrigados a apoiar, para que os filhos possam estudar a Torá e as filhas aprendam a seguir o caminho certo e não se exponham aos que as desprezam. Prover o sustento dos filhos para o pai e para a mãe é contabilizado como um ato de caridade – e, de fato, é um ato de caridade excepcional, uma vez que os parentes têm precedência sobre outras pessoas.
Ele listou a ordem de prioridade para a caridade após os filhos: (1) parentes, (2) famílias, (3) cidades e (4) outras cidades. O agregado familiar é definido como todos os que vivem sob o mesmo telhado, incluindo servos masculinos e femininos, aprendizes e estudantes.
Maimônides acreditava que o amor de Deus é tanto maior quanto mais desenvolvida e aperfeiçoada for nossa inteligência.
Tudo na Terra é sagrado. Aquele que pensa diferente é porque não reconhece a beleza da vida e do próprio planeta. Viva a Mãe Terra! Viva a Mãe Gaia! O planeta está vivo. O ser humano contém a centelha divina do Espírito Santo. Deus é amor e nos permite que moldemos nossa realidade.
Tudo o que existe no Universo segue um plano elaborado e constantemente supervisionado por Deus. Assim como tudo o que uma pessoa almeja ter origina nela a vontade e um plano para obter esta coisa (MAIMÔNIDES, 2018, p. 1745-1747).
Louvado seja Ele, que é tal que, quando nossas mentes tentam vislumbrar Sua essência, nossa inteligência se converte em imbecilidade; quando estudamos a conexão entre Sua ação e Sua vontade, nosso conhecimento se converte em ignorância e quando nossas línguas desejam declarar Sua grandeza por meio de termos descritivos, toda eloquência torna-se impotência e imbecilidade (MAIMÔNIDES, 2018, p. 1765-1767).
1.3 A incorporeidade de Deus e a imagem divina do ser humano refletida na inteligência
O homem distingue-se do restante das criaturas graças à inteligência e capacidade de raciocínio que possui. É uma função extraordinária, inexistente em qualquer outro ser na esfera terrestre, que não precisa ser exercitada por nenhum órgão humano ou instrumento, e equipara-se à própria percepção Divina (ainda que esta não seja uma comparação de todo verdadeira, mas só uma primeira impressão superficial). Entende-se, então, que o homem é mencionado como tendo sido feito à Imagem Divina tão somente porque foi brindado com a capacidade Divina de raciocinar, e não porque Deus seja um corpo e tenha forma ou contorno (MAIMÔNIDES, 2018, p. 1271-1275).
A beleza divina não pode ser contemplada pelos seres humanos.
Que este livro seja parte do caminho de contemplação do sagrado, que seja um guia para todos aqueles que estão perplexos com os escândalos de corrupção em que o ser humano está se envolvendo e que seja um instrumento para abrir os olhos dos ignorantes que trilham para as trevas.
Eis um guia para o caminho sagrado. Diferentes culturas têm diferentes caminhos de elevação espiritual. Não existe o certo e o errado tão certo e tão errado assim. Tudo depende do nível de evolução de cada um.
1.4 Os mandamentos e a grande busca do Guia dos Perplexos
Podemos imaginar que os pensadores e os estudiosos atuam assim guiados pela vontade Divina, bem como pela natureza de suas limitações.
Quando Deus Todo-Poderoso desejou nos orientar para uma vida comunitária aperfeiçoada por meio de Seus mandamentos, sabia que isto só seria possível após nos inculcar algumas crenças racionais, a primeira das quais o conhecimento de Sua Natureza Suprema, de acordo com o melhor de nossa habilidade intelectual (MAIMÔNIDES, 2018, p. 1176-1179).
Os mandamentos serviram para dar as regras de convivência entre os seres humanos e o amor de Jesus Cristo, para mostrar o caminho da salvação; a paz de Buda, para mostrar a iluminação. Diversos caminhos que chegam no mesmo lugar.
A presente obra gera a contemplação dos ícones que fazem parte da história da arte mitológica e religiosa como forma de realçar o conhecimento e de tornar mais afável a leitura.
Maimônides fez a lei respeitável para a filosofia e a filosofia compatível com a lei. Por isso a busca pelo significado intrínseco das leis e pela natureza real da filosofia.
Esta obra tenta, também, lançar luzes sobre as Escrituras Sagradas, não lendo o conteúdo ao pé da letra e, assim, evitando a perplexidade.
O objetivo do Guia dos Perplexos é elevar o indivíduo religioso, é colaborar para a ascensão do ser humano, é ilustrar um homem religioso que foi educado para acreditar na verdade da Santa Lei, que realiza suas obrigações morais e religiosas e se dedica aos estudos filosóficos.
O Guia dos Perplexos, nas palavras de seu autor, nos mostra que a verdade não se torna mais verdadeira porque o mundo inteiro concorda com ela, nem menos verdadeira mesmo que o mundo inteiro discorde dela. Sem conhecimento a alma não é boa. A melhora do comportamento moral significa a cura da alma e de seus poderes. Eis alguns objetivos ambiciosos da vida de Maimônides que foram cumpridos.
Maimônides acreditava que o homem deixou-se ficar à mercê dos prazeres de sua imaginação e dos deleites de seu corpo. Por isso, o ser humano degradou-se em atos odiosos e corruptos.
Maimônides II deseja mostrar que é preciso conter o ódio, transformá-lo em amor com respeito aos princípios básicos da humanidade. Existem coisas que são e sempre serão condenáveis aos olhos do Senhor e de seus povos. Não coadune com zoofilia, pedofilia, crimes, roubos, injustiças, corrupção etc.
Os princípios de Maimônides se encontram presunçosamente atualizados na presente obra. Alguns judeus ortodoxos podem não gostar; mas o conhecimento evoluiu desde 1190 e, com isso, temos os princípios do grande mestre judeu interpretados e audaciosamente atualizados para todos os povos.
Os Dez Mandamentos e o mandamento maior dos cristãos sempre estarão em linha com a vontade do Senhor.
Os males do mundo e a ignorância
Esses grandes males que os homens se infligem uns aos outros – motivados por tendências, paixões, opiniões e crenças – decorrem da privação, pois todos têm origem na ignorância, isto é, na falta de conhecimento. Se tivessem conhecimento, estariam impedidos de fazer qualquer mal a si e aos outros.
Os males que acontecem aos seres humanos são como decorrência de seus abusos dos prazeres mundanos, tais como a bebida, a comida e a luxúria. Ele escreve que “a maioria dos males que atingem os indivíduos provêm deles, quero dizer, dos indivíduos humanos, que são imperfeitos.
Se sofremos é por causa dos males que nós mesmos nos infligimos espontaneamente, mas que atribuímos a Deus…” Este último tipo de mal é o mais nocivo, já que, além de atingir o corpo, prejudica também a alma, seja porque, sendo uma força corporal, ela é influenciada diretamente pelas alterações ocorridas no corpo, ou porque a alma acaba por se familiarizar com o supérfluo e a se habituar a ele, levando o homem a desenvolver uma ambição sem fim, que o faz buscar riquezas e grandezas não-essenciais e totalmente desnecessárias (MAIMÔNIDES, 2018, p. 668-671).
1.5 Todo extremismo é infundado e ineficiente
“A arte da vida está no equilíbrio, no meio-termo: os extremos são sempre expressão de menor eficiência”. (MAIMÔNIDES apud PIZZINGA, n.p.).
Atualizando esta frase em alguns séculos: todo extremismo é infundado e ineficiente.
Aprenda a tolerar as diferenças. Se não concordar com elas, respeite quem pensa diferente. Pratique o perdão, a aceitação. Eis um grande teste que muitas vezes parece impossível.
Como tratar a diferença e aquilo que não tolera? Agindo com respeito e tentando entender. Você pode não concordar e não amar, mas que tal um pacto de não ataque?
Se não puder amar, pelo menos não odeie; e aprenda a perdoar e a respeitar quem quer seguir crenças e ações diferentes.
Tente chegar ao ponto de não se magoar.
O ser humano precisa ser firme na ação contra a corrupção, pois nem no céu nem no nirvana há lugar para aqueles que têm pensamentos, energias e ações impuras. Eis a alma pura: o ser humano precisa respeitar o diferente e não ver os demais como impuros. A alma pura não julga depreciativamente. O justo não aceita a corrupção.
Que este Guia dos Perplexos II: o caminho sagrado e os novos princípios traga paz e tranquilidade para a alma. Não queira entender tudo. Maimônides queria levar o indivíduo para longe das crenças imaginárias que causam medo e ir em busca do conhecimento que traz equanimidade. Não tenha medo de aprender. Viva aprendendo todos os dias.
Uma profunda transformação espiritual pode ser um dos frutos decorrentes da contemplação desta obra e das entidades que aqui são apresentadas como condutoras de possíveis caminhos sagrados (falsos, verdadeiros ou apenas edificantes).
Maimônides acreditava que “o bem-estar da vida advém da boa convivência entre os seres humanos”. Então, por que brigar e matar para tratar de religião? Por que impor seu Deus ao próximo? Se ele é poderoso, por que ele mesmo não transforma os impuros em puros? Por que muitos querem assumir o papel de Deus e julgar como ele?
O século XXI está sendo caracterizado por um substancial aumento da intolerância entre os seres humanos. O número de mortos em atentados terroristas subiu de 3 mil, na década de 1990, para 33 mil por ano, em 2016; e felizmente caiu para 14 mil em 2019.[1]
Na raiz do problema, a violência decorrente da intolerância. Precisamos nos vigiar para descobrir o que não toleramos e o porquê. Precisamos investigar nossos preconceitos, nossos medos, nossas fugas, nossos rancores e a forma como tratamos aquilo de que não gostamos.
A raiva necessita ser contida com fronteiras, barreiras e proteção. A era das fronteiras livres ainda não chegou. O ser humano deve se proteger contra o ser humano. O planeta tenta se revigorar dos ataques. O ódio viralizou. E o que fazer?
1.6 Se não puder amar, pelo menos não odeie e não ataque
Eis um novo mandamento de Maimônides II para o século XXI.
Aquele que odeia, que sente raiva, que vê que algo é impuro e que ataca deve ser contido ou tratado. O risco de explosão é grande quando as diferenças não tratadas afloram.
E por que querer estar certo? E por que julgar? Por que atacar?
Eis a árvore do conhecimento. O pecado original é o julgamento depreciativo. Porém, algumas verdades não são compreendidas em seu tempo de concepção.
Existem tantas coisas entre o Céu e a Terra que escapam ao nosso conhecimento; por que então acreditar que sua crença e seu caminho são melhores que os dos outros?
Dante Alighieri visitou o Paraíso e teve a oportunidade de encontrar a alma de Justiniano – um antigo imperador romano e politeísta pagão. Eis um dos mistérios dessa obra sacra que nos mostra claramente que os desígnios de Deus nem sempre são entendidos pelos humanos; por isso, não julgue a religião dos outros.Por que encarar a diferença com perplexidade em vez de aceitá-la?
Como desenvolver a compaixão por todos os seres? E por que querer que exista somente um caminho para o sagrado? Eis algumas das questões sobre as quais esta obra discorre.
Maimônides, meu antepassado, era judeu e escreveu muitas vezes para seu povo. Contudo, a interpretação de sua obra pode ser generalizada para toda a humanidade.
Maimônides II, portanto, com muita honra e ousadia, apresenta-voso Guia dos Perplexos II: o caminho sagrado e os novos princípios – escrito para todos.
1.7 Da imagem e da aparência
Muitos creem que o termo Tsélem – ou imagem, em hebraico – refere-se a forma ou contorno. Trata-se de um erro, um erro significativo que acabou gerando uma associação entre Deus e a figura humana por conta da interpretação antropomórfica dada ao versículo “Façamos o homem à Nossa imagem” (Gênesis 1:26).
Mais do que isso: os que pensam assim negariam até as Escrituras, caso chegassem a qualquer outra conclusão. Não conseguem imaginar Deus sem um corpo e uma face semelhantes às dos humanos – as únicas diferenças diriam respeito ao aspecto mais luminoso e à maior estatura de Deus, bem como à suposição de que Ele não seria feito de carne e osso. Esse é o mais alto grau de distanciamento da condição humana que pessoas que pensam assim estão preparadas a creditar ao Eterno.
Você encontra neste tratado uma demonstração completa da falsidade que acompanha o antropomorfismo, bem como os argumentos que sustentam a verdadeira unicidade divina e que não fariam sentido se não rejeitássemos o antropomorfismo. Neste capítulo, temos por objetivo explicar apenas os termos “imagem” e “semelhança”.
O termo “imagem”, da maneira como é usado habitualmente, tem na verdade o sentido do vocábulo hebraico Tôar (forma), como nos versículos “…formoso de porte e de semblante” (Gênesis 39: 6); “…que forma tem Ele?” (1 Samuel 28: 14); e “…como o porte dos príncipes” (Juízes 8: 18).
O verbete “imagem” se aplica aos objetos fabricados pelos artesãos, como “Ele o moldou com giz vermelho… ele o circundou com um compasso” (Isaías 44: 13). Este é um termo que não pode, sob hipótese alguma, ser aplicado ao Eterno e Todo-Poderoso [como se Deus tivesse um molde].
A palavra “imagem” é válida somente para algo que tenha uma representação física, que exiba feições, que possa ser delineado e que traduza o genuíno caráter daquilo que está representando. As imagens compõem o quadro de noções que o ser humano tem daquilo que está à sua volta. É nesse contexto intelectual que a Bíblia se expressa com as palavras “à imagem de Deus o criou” (Gênesis 1: 27). Pelo mesmo motivo, o salmista escreve “Despreza as imagens deles” (Salmos 73: 20), pois nesse contexto o termo “imagem” se refere à alma humana em sua forma mais genérica, e não a alguma outra forma ou ao contorno do corpo.
Sugiro também que o termo “imagem”, quando aplicado a ídolos, esteja vinculado à sua pretensa função e à sua forma. O mesmo caso se aplica à expressão “imagens de suas hemorroidas”, encontrado no livro de Samuel (1 Samuel 6: 5), empregada como alegoria do que essa enfermidade causa ao homem, e não como comparação de sua imagem ao ferimento que define a doença.
A frase “façamos o homem à Nossa imagem” busca a forma genérica do termo como percepção intelectual [da essência humana moldada ao reflexo da luz divina], e não como um formato ou contorno. Explicaremos, portanto, a diferença entre imagem e forma, assim como o significado do termo “imagem”. Quanto ao termo demút (aparência, em hebraico), trata-se de um substantivo derivado de Damê (parecer-se com), que também se aplica à função ou ao caráter do que representa.
A frase “Pareço uma ave no deserto” (Salmos 102: 7) não significa que eu tenha penas como a ave, mas sim que me sinto só e tristonho, como uma ave se sente no deserto. De modo similar, “Árvore alguma no Jardim de Deus se parecia com ele em sua beleza” refere-se somente à noção de beleza. Do mesmo modo, “Seu veneno se assemelha ao de uma serpente” (Salmos 58: 5), e “Assemelha-se ao leão que espreita” (Salmos 17: 12) são expressões alegóricas que implicam semelhança de atributo, e não de forma ou contorno.
Similarmente, alusões à semelhança com o trono [de Deus] implicam o estado de elevação e grandeza espiritual, e não algo parecido com um trono, alto e de formato quadrado, como alguns pobres de espírito possam vir a pensar. O mesmo se aplica à “Sua aparência era como carvões em brasa” (Ezequiel 1: 13), quando o profeta descreve as figuras da Mercavá, o trono ou carruagem de Deus (MAIMÔNIDES, 2018).
1.8 Racionalidade e semelhança
Anos atrás, um cientista colocou-me diante de um estranho problema. Estudaremos aqui tanto o problema quanto sua solução, dada a relevância que tem para nosso tratado. Antes, porém, quero ressaltar algo: é do conhecimento dos eruditos que o nome Elohim pode significar Deus, anjos ou juízes que governam.
O tradutor de textos bíblicos Unkelos, o prosélito – que em paz esteja – notou com propriedade que, no versículo “E sereis como Deus, conhecedores do bem e do mal” (Gênesis 3: 5), o significado seria o último citado, pois traduziu-o como “E sereis como Senhores”.
Uma vez de acordo quanto aos possíveis significados do termo Elohim, vamos ao problema mencionado. Meu interlocutor afirmou que uma leitura simples da Bíblia fazia saltar aos olhos sua intenção de ensinar ao homem que, a princípio, a ele caberia o mesmo destino dos animais, isto é, o de ser irracional, e que, ao saborear do fruto da Árvore da Sabedoria, ele adquiriu a habilidade divina de discernir entre o bem e o mal. Quando se rebelou, fez da rebelião a fonte de sua grandeza, ao tornar-se o único animal de posse do atributo da razão, nobre função que transmitiu a seus descendentes e da qual somos dotados até os dias de hoje. Isto, segundo meu interlocutor, seria o mais impressionante: a punição pela rebeldia foi aperfeiçoar o homem e elevá-lo a um estado espiritual em que não se encontrava antes do pecado. Com que mais isso se parece senão com a história [pagã] do homem mau que, de tão mau, foi transformado em uma estrela e atirado ao céu para lá brilhar longe dos homens? Esse seria o sentido geral da questão, ainda que ela não tenha sido apresentada a mim exatamente dessa maneira.
Vejam como respondo ao meu interlocutor: você se dispõe a fazer tal análise filosófica a partir de ideias tão imaturas, achando que pode entender um livro cuja explicação vem sendo dada pelos maiores sábios da Antiguidade e estudiosos contemporâneos assim, entre um gole de vinho e outro, entre um relacionamento amoroso e outro, como quem passa os olhos rapidamente por um livro de poesia? Pare e reflita um pouco, pois essa matéria não é tão simples como parece, e seu significado emerge somente após nos dedicarmos a buscar seu mais profundo sentido.
O intelecto que Deus consagrou ao homem para ser sua eterna marca de perfeição foi concedido a Adão antes de seu ato de desobediência.
É apenas nesse sentido que o homem é visto como tendo sido moldado à imagem divina. Somente como detentor dessa qualidade o homem tem capacidade para se dirigir a Deus e receber Seus comandos, como está escrito: “E ordenou o Eterno Deus ao homem” (Gênesis 2: 16).
São instruções que não foram dadas a animais irracionais. É através do intelecto que o homem pode distinguir entre o verdadeiro e o falso — e dessa forma decidir se obedece ou não. A distinção entre o bem e o mal é, no entanto, de caráter sociocultural e independe da atividade mental humana.
Ninguém diz coisas como “é bom que a abóbada celeste seja esférica”, ou “é ruim que a Terra seja plana”, mas todos podemos afirmar se esses fatos são verdadeiros ou falsos. No idioma hebraico, expressamos a verdade com a palavra Emêt e o falso com a palavra Shéker, enquanto para “bom” usamos o termo Tóv e para “mal”, o termo Rá.
O intelecto humano discerne claramente entre verdadeiro e falso quando exerce sua capacidade inata de raciocínio. Em relação a essa capacidade, o homem é dotado do mais alto estágio de desenvolvimento a que pode chegar uma criatura, a ponto de o salmista defini-lo como “Pouco menos que Deus, o fizeste” (Salmos 8: 6). Ao mesmo tempo, parece não ter habilidade suficiente para tratar de generalidades que o bom senso determina serem boas ou ruins, tanto que nem mesmo conseguiu chegar à conclusão, usando a própria razão, do que seria necessário para cobrir suas partes íntimas – foi Deus quem confeccionou suas primeiras vestes –, tampouco saberia sozinho que o ato de andar despido constituiria um mal em si.
Quando, no entanto, o Homem deixou-se ficar à mercê dos prazeres de sua imaginação e dos deleites de seu corpo, como está indicado no versículo “E viu a mulher que era boa a árvore para comer e desejável era para os olhos” (Gênesis 3:6), somente nesse momento passou a ser punido com a privação de sua percepção intelectual. Por essa razão, desobedeceu a uma ordem de Deus que lhe havia sido dada justamente pela virtude de seu intelecto, capaz de decidir entre o falso e o verdadeiro. Não contente com essa virtude, o homem quis também decidir sobre o bem e o mal e acabou por tornar-se descuidado em seu julgamento.
Agora o Homem se dá conta do que perdeu e do estado de degradação pessoal a que chegou. Por isso está escrito “E sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal”, e não “conhecendo o verdadeiro e o falso”, ou “percebendo entre o verdadeiro e o falso”.
Discernir entre o bem e o mal não é tão obviamente necessário, como ocorre com a distinção do verdadeiro e do falso. Veja esta passagem: “E foram abertos os olhos de ambos, e souberam que estavam nus”. O texto não diz que os olhos de ambos foram abertos e que então eles viram que estavam nus, porque o que eles viram depois [do pecado] foi o mesmo que estavam vendo antes. Nenhum véu foi removido de seus olhos, mas seu estado mental e sua capacidade de julgamento que foram alteradas e, assim, passaram a julgar como mau o que não consideravam como tal anteriormente. Observe ainda que o termo utilizado pela Bíblia para abrir (os olhos) é Pacach (astúcia, controle) em vez de Patach (abrir), o que denota mudança no estado mental, e não na capacidade física de enxergar, como nos versículos “E abriu Deus seus olhos” (Gênesis 2: 19), “E abrirão os olhos dos cegos” (Isaías 35: 5), “Abriram os ouvidos, mas não escutaram” (Isaías 42: 20), “Têm olhos, mas não enxergam” (Ezequiel 12: 2) (MAIMÔNIDES, 2018).
1.9 A crença dos tolos
O tolo crê que o mundo existe somente em sua função, como se não existisse nada fora ele; se as coisas andam no sentido contrário à sua vontade, então conclui que todo o Universo é mal.
Se o Homem examinasse o Universo em toda a sua totalidade, daria conta de sua insignificância e entenderia claramente a verdade.
A maior parte dos males que atingem os homens são causados por eles, ou seja, por indivíduos imperfeitos.
Nossas próprias imperfeições fazem com que nos lamentemos e peçamos para sermos livrados de nossos males.
Quando sofremos por conta dos males que nosso livre-arbítrio traz a nós, atribuímos isso a Deus. Longe disso ser d’Ele!
Como está escrito: “Quando pecam, fazem o mal a eles, e não a Deus; não procedendo corretamente, deixam de ser considerados Seus filhos; é essa sua mancha” (Deuteronômio 32: 5) e como o rei Salomão explica: “A tolice humana perverte seus caminhos” (Provérbios 19, 3) (MAIMÔNIDES, 2018, p. 2872-2876).
Deus não pode ser definido
Pois não existem causas que possam ser uma causa da existência de Deus para que Ele possa ser definido por elas. Por essa razão, todos os pensadores que usam termos precisos [para definir algo] estão inteiramente de acordo que Deus não pode ser definido. (…) Louvado seja Ele, que é tal que, quando nossas mentes tentam vislumbrar Sua essência, nossa inteligência se converte em imbecilidade; quando estudamos a conexão entre Sua ação e Sua vontade, nosso conhecimento se converte em ignorância e quando nossas línguas desejam declarar Sua grandeza por meio de termos descritivos, toda eloquência torna-se impotência e imbecilidade (MAIMÔNIDES, 2018, p. 1528-1530).
1.10 Sobre a perfeição de Deus e os atributos divinos
Muito foi dito sobre a perfeição de Deus e é inútil retornar a isso aqui. As palavras mais exatas ditas sobre esse assunto foram ditas nos Salmos (65: 2): “Para Ti, o silêncio é o louvor” (Lechá dumiá tehilá).
Essa expressão é muito exata para esse significado, pois tudo que é dito com intenção de exaltar e glorificar Deus encontra em si uma ofensa qualquer em relação a Ele e expressa certa imperfeição.
Portanto, deve-se ficar em silêncio e limitar-se à percepção da inteligência, como nos ordenaram os homens perfeitos ao dizerem: “Dizei em vossos corações em vossos leitos e silenciai-vos” (Salmos 4: 4).
Deves conhecer o famoso dito dos nossos Sábios, que, quem dera, todos os ditos fossem como este. Citarei-o literalmente:
Certa pessoa, que estava diante do Rabi Chanina, dizia em sua prece: “Ó grande, poderoso e temível, magnífico e forte, temido e imponente!”
O Rabi interrompeu-o e disse: “Já encerraste todos os louvores ao teu Senhor? Com efeito, se Moisés, nosso mestre, não tivesse enunciado na Torá os três primeiros que citaste e os Homens da Grande Assembleia não tivessem estabelecido atributos na oração, nós não poderíamos pronunciá-los. E tu proferes tantos atributos assim! A que isto se compara? A um rei de carne e osso que possuía milhões de moedas de ouro e foi venerado por possuir moedas de prata. Acaso isso não é um insulto a ele?!” Aqui termina o dito deste homem virtuoso.
A Torá utilizou a linguagem dos seres humanos. Portanto, deveríamos nos limitar àquelas três palavras e não designar outros atributos a Deus, exceto na hora da leitura dos atributos na Torá.
Porém, como os Homens da Grande Assembleia – que eram profetas – decretaram que as palavras hagadol haguibor vehanorá (“ó grande, poderoso e temível”) fossem recitadas nas preces, devemos proferir somente essas palavras.
Em suma, o Rabi Chanina disse explicitamente que há duas razões, e necessariamente juntas, para as mencionarmos nas preces: a primeira, porque aparecem na Torá, e a segunda, porque os profetas as incluíram nas orações.
Não fosse pela primeira razão, não as mencionaríamos; e não fosse pela segunda, não as teríamos tirado de seu lugar e não as usaríamos nas orações.
“E tu proferes tantos atributos assim?!”
O Rabi Chanina disse: “A que isto se compara?” A um rei de carne e osso que possuía milhões de moedas de ouro e foi venerado por possuir moedas de prata, pois esta parábola expressaria que as perfeições de Deus são mais perfeitas do que as que foram atribuídas ao rei.
Não, não é assim, como provamos demonstrativamente. A sabedoria dessa parábola é no que diz “e foi venerado por possuir moedas de prata”, indicando que o que é considerado perfeição para nós constitui imperfeições em relação a Deus, sendo tudo imperfeição em relação a Ele, como explicado.
Ele disse nesta parábola: “Acaso isso não é um insulto a ele?!”. Salomão – que a paz esteja com ele – já nos orientou nesse assunto claramente e disse: “Porque Deus está nos céus e estás na terra, portanto que tuas palavras sejam poucas” (Eclesiastes 5, 2).
Deus não consiste em dizer o que não se deve, mas sim, compreender o que é devido (MAIMÔNIDES, 2018, p. 135).
1.11 Os nomes de Deus
Todos os nomes de Deus nas Escrituras são derivados de Suas ações, com exceção do Tetragrama.
Todos os nomes de Deus que se encontram nas Escrituras Sagradas são derivados de Yod-He-Vav-He, um nome que se refere a Suas ações.
Com exceção de um próprio nome de Deus, e por isso denominado de shem hameforash (“Nome explícito”), cujo significado indica claramente a essência de Deus – bendito seja! – sem homônimos.
Quanto aos Seus outros nomes gloriosos, são designados por homônimos por serem derivados de ações que se assemelham às que se encontram em nós, conforme explicado.
Mesmo o nome que é aplicado em substituição a Yod-He-Vav-He é derivado.
Mas o nome cujas letras são Yod-He-Vav-He é de etimologia desconhecida e não se aplica a nenhum outro ser (MAIMÔNIDES, 2018, p. 141).
Não há dúvida de que esse glorioso nome, que não é pronunciado em nenhum lugar além do Templo – e apenas pelos sacerdotes de Deus, ao recitarem a Bênção dos Sacerdotes, e pelo sumo sacerdote no Dia do Jejum –, aponta para uma ideia que não é compartilhada entre Deus e outros além Dele.
Em suma, a grandiosidade desse nome e a proibição de pronunciá-Lo decorrem do fato de Ele indicar a essência de Deus, de modo que nenhuma das criaturas compartilha o que ele indica, conforme disseram nossos sábios.
Todos os Seus outros nomes indicam os Seus atributos – e não somente Sua essência, e a essência com atributos, pois são derivados. Por isso, eles induzem à falsa crença de que existe multiplicidade em Deus, ou seja, fazem crer que existem atributos, que exista a essência e algo acrescentado à essência; pois assim qualquer derivado indica uma ideia, e um sujeito demonstra que não foi expresso naquele e se junta a essa ideia.
Os sábios disseram claramente, para quem é verdadeiramente um sábio, que cada uma das forças corporais é um anjo – e, por mais forte razão, as forças espalhadas pelo Universo – e que cada força possui uma ação específica, e não duas ações, como lemos no Bereshit Rabá: “Um anjo não executa duas missões e dois anjos não executam a mesma missão”. Com efeito, esta é a condição de todas as forças, e é isso que confirma que todas as forças individuais – tanto físicas quanto psíquicas – são chamadas de anjos.
Os sábios dizem isso em diversos lugares, originalmente no Bereshit Rabá: “Todos os dias Deus cria uma legião de anjos, e eles cantam para Ele e se vão.”
Quando foram apresentadas passagens que indicavam que os anjos eram estáveis – e com efeito foi exposto diversas vezes que os anjos vivem e são permanentes –, a resposta é que uns são permanentes e outros perecem.
E assim é realmente: as forças individuais nascem e perecem continuamente, e algumas espécies dessas forças são permanentes e não se deterioram. E foi dito ainda (Bereshit Rabá) com relação à história de Judá e Tamar: “O Rabi Iochanan disse que Judá queria prosseguir, mas Deus enfraqueceu o anjo do desejo, ou seja, a faculdade venérea”.
Essa força também é chamada de anjo. Assim, os sábios dizem sempre que “o anjo tal é designado para isto ou aquilo”, pois para qualquer faculdade encarregada por Deus sobre alguma coisa há um anjo incumbido. São imperceptíveis pelos sentidos.
Uma passagem do Midrash Eclesiastes diz: “Quando o homem dorme, sua alma com o anjo, e o anjo com o querubim”. Eis que eles disseram claramente que a faculdade imaginativa também é chamada de anjo, e o intelecto também é chamado de querubim (MAIMÔNIDES, 2018, p. 141).
Como isso é belo para quem compreende, e quão desagradável é para os ignorantes!
A Providência Divina
A Providência Divina protege constantemente quem recebe emanações Divinas, porque se esmera em obtê-las. Quando um Homem alcança pureza de pensamento e clara percepção Divina por meio dos métodos apropriados, tornando-se pio, não é possível que mal algum o aflija, porque ele está com Deus e Deus está com ele. No entanto, quando se afasta de Deus e Deus se oculta dele, torna-se alvo fácil para que o mal lhe acometa. O fator que entra em ação para salvar o Homem dos males que maquinam contra ele é a emanação Divina que penetra seu intelecto. Por isto, a providência pode falhar em alcançar o homem de intelecto falho e jamais alcançará o Homem de intelecto imperfeito ou perverso, deixando-o à deriva dos acontecimentos casuais (MAIMÔNIDES, 2018, p. 3616-3621).
A definição de idolatria e o livre-arbítrio
A idolatria em todos os tempos teve sua origem na personificação dos astros, feita pelos sabianos, que acreditavam que os astros eram a divindade e que o Sol era o deus supremo. O próprio Abraão foi educado dentro dessa religião, e sua oposição a ela lhe valeu a prisão, o confisco de seus bens e o exílio da Síria. Os sabianos adoravam os sete planetas e os doze signos do Zodíaco e diziam ainda que Adão era o apóstolo da Lua, e que Noé foi encarcerado porque não aprovava o culto dos ídolos e porque se dedicava ao culto a Deus. Assim, eles ergueram estátuas aos planetas, estátuas de ouro ao sol e estátuas de prata à lua, e distribuíram os metais e os climas pelos planetas, dizendo que tal planeta era o deus de tal clima. Eles construíram templos nos quais colocaram estátuas e afirmaram que as forças dos planetas se derramavam sobre essas estátuas, de tal forma que elas falavam, compreendiam, pensavam, inspiravam os homens e lhes davam a conhecer o que lhes era útil.
Eles acreditavam, ainda, que se uma árvore fosse plantada em nome de um planeta e consagrada a ele, de acordo com determinados ritos e cuidados, a força espiritual desse planeta passava para essa árvore – por exemplo, no caso da Ashera e do Baal –, que inspirava os homens e lhes falava durante seu sono, dando assim origem aos augúrios, à feitiçaria, às previsões, à magia etc. Por não ser uma ciência completa, a idolatria leva à dúvida e à superstição, transformando aqueles que nela acreditam em vítimas da ignorância e sujeitando-os a situações de miséria e de destruição, tornando-se necessário que o ser humano saiba diferenciar entre os verdadeiros profetas de Deus e os outros.
Foi, portanto, para afastar esses cultos dos hábitos dos homens que Deus se preocupou em estabelecer os preceitos relativos à interdição da idolatria, pois “para aproximar-se do verdadeiro Deus e para se obter a sua benevolência não se precisa de todas essas práticas penosas, mas… basta amá-Lo e segui-Lo, duas coisas que são o verdadeiro objetivo do culto Divino”
Assim sendo, não faz nenhum sentido que haja pessoas que imaginem que seus destinos possam ser regidos por esses astros a quem se dedicavam templos e oferendas. Além do mais, se os astros se encarregassem de dirigir a vida das pessoas, estabelecendo-lhes um destino que variaria de acordo com a posição deles no momento do nascimento de cada uma delas, e se elas nada pudessem fazer para intervir ou mudar isto, a Lei que Deus nos deu não teria nenhuma razão de ser: tudo já estaria traçado e determinado, de forma definitiva e inexorável, independentemente da atitude e do comportamento de cada um, quer vivesse ele no caminho dos justos e dos bons ou na delinquência e na depravação. “Nesse caso, toda recompensa e todo castigo seriam injustiças manifestas que não poderiam ser permitidas nem entre nós, nem por parte de Deus com relação a nós” (NAHAÏSSI, 2018, p. 714-718).
1.12 A terapia moral e os conflitos religiosos da época de Maimônides
Para alguns, Maimônides acreditava que o cristianismo era uma imitação do judaísmo e uma religião idólatra. Porém, Maimônides não via o cristianismo como antagônico ao judaísmo, pois ambos tinham os Mandamentos como alicerces. Na época de Maimônides, os cristãos atacavam os judeus durante as Cruzadas, e os muçulmanos invadiam suas terras e os matavam ou faziam migrar.
A revolução teológica, aliada ao desejo de conquista, levou a um sucesso sem precedentes; e o reino dos Almohades se estendeu da Síria ao Oceano Atlântico. Eles destruíam as igrejas e as sinagogas, e aos povos que não aceitavam converter-se à “verdadeira religião islâmica”, propagada por eles, restava a imigração ou a morte. O jugo dos Almohades se fazia sentir na mesma época em que as Cruzadas partiam da França e da Alemanha, a fim de conquistar a Terra Santa e apossar-se do túmulo de Cristo.
Intolerantes, os cruzados arrasavam, em sua marcha para Jerusalém, tudo o que encontravam de não cristão, massacrando em seu caminho as populações judias indefesas. Mais uma vez a história se repetia, e os judeus se defrontavam com uma nova e grave crise de identidade: dobrar-se aos conquistadores islâmicos ou à barbárie dos cruzados em marcha.
O fanatismo religioso imperava tanto no Levante quanto no Ocidente, e continuar professando o credo judaico representava um risco de vida. Talvez esse tenha sido um dos momentos mais difíceis e trágicos da história da sobrevivência do judaísmo. Eram necessárias grandes forças para sustentar a fé, e um dos personagens mais importantes dessa época foi Maimônides, pois a clareza de suas ideias e de seus escritos manteve acesas no povo judeu as chamas da crença e da liberdade da ciência e do conhecimento.
Muitos judeus, no entanto, para escaparem à morte ou ao abandono do lar, optavam pela conversão aparente à doutrina dos “confessores da unidade”. Essa conversão, que os obrigava a uma vida dupla vergonhosa e sem dignidade, era suportável apenas por contarem com a Providência Divina e pela ideia de que a situação teria algum sentido compreensível. Contudo, o conflito se tornava um sofrimento intolerável quando o sustentáculo moral da fé começava a desmoronar, abalando sua confiança em Deus e em si mesmos (MAIMÔNIDES, 2018, p. 252-254).
1.13 Era uma vez e tudo de novo: o eterno retorno
A história parece se repetir; e na era de Maimônides II o fanatismo político e religioso tomou proporções gigantescas ainda maiores do que as enfrentadas pelo autor de Guia dos Perplexos.
Nesta vida, Maimônides II louva a Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo, a Maria, aos anjos, aos santos, aos apóstolos e às entidades espirituais elevadas, iluminadas e benevolentes como Buda, as Taras e os seres espiritualmente elevados.
E, assim como Maimônides, almejo apresentar uma obra que seja uma jornada de fé, sofrimento e coragem para diminuir a complexidade daqueles que estão confusos em uma era tão corrupta e injusta.
Maimônides II ousa mostrar como a crença em um Deus criador único não se contradiz com o louvor aos santos, anjos e profetas. Talvez os santos sejam os primeiros seres humanos que se elevaram e os anjos, entidades espirituais protetoras criadas pelo Divino.
Maimônides II quer orar com os olhos e com o coração, por isso organizou esta obra para louvar as divindades pela iconografia. Um livro divino e espiritualizado, para mostrar como o caminho apontado pelo catolicismo e pela religião cristã ortodoxa nos conduzem ao Divino.
Eis a Arte para pavimentar o caminho para o Divino. A Arte é de Deus. E os diversos caminhos também.
Maimônides acreditava que as pessoas deveriam viver em harmonia com a natureza, contemplando a vida e o Universo, seguindo os preceitos religiosos e éticos. Assim teríamos a presença divina – em uma sala silenciosa, em uma tempestade no mar ou em qualquer outro lugar, eis o amor passional e incondicional a Deus.
As pessoas e as nações podem cair rapidamente em desgraça, por isso o trabalho de Maimônides é uma forma de terapia para guiar os comportamentos em direção à natureza e à harmonia, uma cura contra as ilusões e os falsos padrões.
Maimônides queria nos apontar o caminho a ser seguido para alcançar a perfeição do corpo e da alma que Deus espera de nós.
Nesta obra, muitos questionamentos são apresentados de maneira até contraditória; porém, as bases do sistema ético hebreu foram solidificadas por Maimônides, e por isso Maimônides II tem uma missão difícil de ser realizada à altura do grande Moshê.
Peço perdão ao leitor por não estar à mesma altura que meu inspirador, e àqueles que ficarem chocados; mas as crenças evoluíram nos últimos 800 anos. Ainda assim, ouso dar sequência à obra de meu antepassado mais honrado. Amor incondicional.
Tudo evolui. Tudo muda. O segredo da vida é a mudança. Por isso, eu mesmo, Rambam II, apresento o caminho sagrado e os novos princípios.
Eis um guia que serve para direcionar os caminhos e abrir espaço para uma nova era de paz, justiça, desenvolvimento e amor.
A verdadeira busca não é a da igualdade, mas sim da equanimidade. Imparcialidade, equidade para julgar.
O pensamento de Maimônides é atualizado por seu descendente direto, Maimônides II[DC1] [RMP2] , que espera se pautar pelos mesmos valores que ele contemplou à humanidade em suas obras e tratados de ética. Por isso, utilizarei os textos sagrados da Torá e do Novo Testamento para solidificar as bases desta obra.
1.14 Dos 10 mandamentos de Moisés aos 613 preceitos da Torá (e como o amor e o temor a Deus são conciliáveis, na visão de Maimônides)
Maimônides escreveu: “O cumprimento da Lei leva somente ao temor a Deus enquanto o conhecimento da Lei leva ao amor a Deus” (MAIMÔNIDES, 2018, p. 4187-4193).
Maimônides acreditava que Deus era para ser amado e, por meio de seus mandamentos, devia ser temido. Para ele, amor e temor são conciliáveis, como um filho que ama seus pais e teme os castigos quando não cumpre suas ordens.
A distinção entre o propósito da lei bíblica, de orientar o homem a temer a Deus, e as verdades bíblicas, de elevar o amor do homem a Deus, não é descrita em outros lugares na obra de Maimônides. De fato, está em contradição com sua observação no início deste capítulo, na qual afirma que a consciência humana quanto à permanente presença divina deve produzir sentimentos de temor e humildade em sua mente. Por essa razão, é pouco permissível apresentar esses dois argumentos de maneira tão próxima.
Na visão do padre ortodoxo Rafail Noica, mencionado na página Orthodox Bros do facebook, “O medo de Deus” foi mal interpretado. A palavra em grego “φόβου/fovou”, quando se refere a Deus, é melhor traduzida como reverência, ou admiração. Assim, Deus não é sádico. Ele não quer que o temamos no sentido ocidental/heterodoxo. Ele apenas quer o nosso amor. Ele quer que queiramos o amor Dele.
De forma resumida, os 613 preceitos positivos (o que fazer) e negativos (o que não fazer), também conhecidos como os mandamentos da Torá, objetivam:
1. transmitir atitudes apropriadas;
2. remover concepções errôneas;
3. estabelecer legislação;
4. eliminar a perversidade e a injustiça;
5. imbuir virtudes exemplares;
6. deter a pessoa perante as más inclinações.
Principais preceitos positivos – Mitzvot Aseh
- Saber que Deus existe.
- Não distrair a mente com outros deuses além Dele.
- Saber que Ele é um.
- Santificar Seu nome.
- Fazer confissões.
- Cumprir todos os compromissos.
- Tocar o shofar no décimo dia de Tishri no ano do Jubileu.
- Descansar no sábado.
- Comer o pão sem fermento na véspera do 50º dia de Nissan.
- Descansar em Yom Kippur.
- Dar meio shekel anualmente.
- Obedecer ao Supremo Tribunal.
- Concordar com a decisão da maioria.
- Tratar litigantes igualmente diante da lei.
- Se for ladrão, deve-se restituir o que roubou.
- Emprestar dinheiro aos pobres.
- Restituir o prometido ao necessitado.
- Amar o próximo.
- Honrar os mestres e os idosos.
- Ser frutífero e multiplicar-se.
- O violador deve se casar com a moça que violou.
Principais preceitos negativos – Mitzvot Taaseh
- Fazer imagens com propósito de adoração.
- Estudar práticas idólatras.
- Jurar por um ídolo.
- Profetizar em nome de um ídolo.
- Praticar a arte da adivinhação.
- Buscar informações dos mortos.
- Blasfemar o Grande Nome.
- Profanar o nome de Deus.
- Destruir lugares de adoração.
- Comer um pedaço de uma criatura viva.
- Comer sangue.
- Comer e beber em excesso.
- Acasalar animais de diferentes espécies.
- Exigir pagamento de um devedor que não pode pagar.
- Emprestar, tomar emprestado ou participar de um empréstimo por interesse.
- Tomar garantia de um devedor à força.
- Jurar falsamente para repudiar um débito.
- Enganar nos negócios.
- Entregar um escravo fugitivo.
- Planejar adquirir a propriedade de outro.
- Cobiçar os pertences de outros.
- Se for um juiz e cometer injustiças, aceitar presentes dos litigantes, favorecer um litigante, ser dissuadido por temor de fazer um justo julgamento, perverter um julgamento e perverter a justiça.
- Matar um ser humano.
- Dar notícia enganosa.
- Amaldiçoar.
- Ter relações com a mãe.
- Ter relações com um animal.
Os oito níveis da Tzedaká (caridade ou justiça social)
Tzedaká, Tsedaca ou Zedacá é o mandamento judaico traduzido erroneamente como caridade. Tem origem na palavra tzedek (justiça), sendo “justiça social” uma tradução mais precisa. Esse mandamento é a base da obrigação que todo judeu tem de doar algo de si, quantificado em no mínimo 10% dos ganhos, ao necessitado judeu ou descendente de Noé. Também podem ser doados em forma de trabalho ou conhecimento. Todos os judeus devem cumprir a Tzedaká, tanto os ricos quanto os miseráveis e as crianças. Os níveis são:
1º) O nível mais alto: ajudar uma pessoa a encontrar um trabalho, ser autossuficiente ou ensinar-lhe um ofício.
2º) Dar Tzedaká secretamente a alguém que não conhecemos.
3º) Dar Tzedaká secretamente a alguém que conhecemos.
4º) Dar quando não conhecemos a quem damos, e aquele que recebe sabe quem deu.
5º) Dar Tzedaká antes que peçam a nós.
6º) Dar Tzedaká depois que nos pediram.
7º) Dar, mas não aquilo que poderíamos ou que deveríamos dar.
8º) Dar Tzedaká sem vontade (mas não deixar de dar).
As etapas da T’shuva
De acordo com Maimônides (2018), a T’shuva é a prática de voltar às origens do judaísmo. Também tem o sentido de se arrepender dos pecados de maneira profunda e sincera e envolve cinco etapas:
1ª) Confissão, verbalização ou expressão de alguma forma de arrependimento.
2ª) Compromisso de passar a agir de forma diferente.
3ª) Conscientização das ações e reconhecimento dos pecados.
4ª) Sentimento de arrependimento quando reconhecemos as consequências dessas ações e desses pecados.
5ª) Capacidade de reagir de forma diferente, por exemplo, em atos de caridade. O milagre não prova o impossível; serve, apenas, como confirmação do que é possível.

Guia dos Perplexos, tradução de Shlomo Pines, 1974.
1.15 A busca da iluminação
A busca da iluminação é uma das características dos seres evoluídos. A busca da pureza da alma. A busca da salvação. Talvez essas sejam diferentes expressões para o mesmo fim.
A prática diária da autoanálise e da meditação pode trazer conhecimento e percepção referente a quanto precisamos evoluir para sermos iluminados.
O Evangelho apócrifo de São Tomé mostra que o apóstolo incrédulo acreditava que o Reino de Deus poderia ser conquistado pelas pessoas que colocam em prática os ensinamentos Dele, sem nenhuma intervenção divina.
Uma nação merece os políticos que cria. Eis o carma coletivo. O ovo veio da galinha ou a galinha veio do ovo? Políticos corruptos são enviados para terras depredadas e corruptas, e nelas proliferam.
Os povos primitivos viam os espíritos como deuses e os fatos inexplicáveis da natureza, como obras divinas. Também viam os atos indecentes e imorais como do diabo ou de espíritos malévolos. Os castigos divinos e as pragas de Deus são apresentados como formas de expiação e aprendizado.
Milhares de anos se passaram, e a veneração aos espíritos superiores, chamados de deuses, começa a ser percebida como um agradecimento às entidades benfeitoras. Porém, para muitos a religião dos outros é chamada de mitologia, e a dicotomização do aprendizado religioso faz dos beatos seres ignorantes da diversidade de conhecimento espiritual e da beleza do politeísmo, que venerava os espíritos mais elevados e temia as entidades malévolas.
Os politeístas tidos como pagãos veneravam os astros e o planeta Terra, e tinham o ser humano como uma miniatura de Deus. Alguns viam Deus em tudo, até na matéria inanimada.
Os mitos constroem o mundo. Enigmas e provérbios dão significado transcendental aos fatos cotidianos. A maior parte dos deuses, dos orixás e das entidades espirituais se remetem a um deus único. Todos são partes de um deus supremo e manifestações do caráter do Deus criador. Deus criou os deuses, e estes são os seres humanos para uns e/ou os espíritos ou orixás para outros.
A maior prova de que muitos politeístas não levavam a sério suas crenças é que eles “escrachavam” seus deuses em conversas coloquiais; Platão certamente é um grande exemplo de deboche aos habitantes controversos do Olimpo.
Sobre o panteão egípcio, acredita-se que os mais diversos deuses e deusas representavam aspectos e características distintas do Criador, aparentemente segregadas, mas que no fundo se remetiam ao Deus único e onipresente.
Guerrear em nome de Deus é não entender nada da vida, muito menos Dele. Atentar contra a vida e contra a Terra é atentar contra o Criador. Brigar por diferenças políticas é ainda mais fútil, especialmente se a discussão se der a fim de definir qual partido é menos corrupto – erro que o próprio autor deste livro já cometeu. Quem nunca errou que atire a primeira pedra.
Nesta obra há uma encantadora mistura de conceitos religiosos de diversos povos e dos aprendizados que podemos extrair dos mitos gregos, egípcios, babilônicos e bíblicos, para que haja salvação para os perplexos.
Desde o Egito Antigo, sabemos que os princípios éticos universais regem a vida dos seres nesta vida e no além.
Osíris e Anúbis conduziam o julgamento dos mortos, e Thot e Maat foram os protagonistas da construção da tábua de valores com 42 Mandamentos, que representavam os valores éticos e serviam como guias sobre o que fazer e o que não fazer.
Buda, Tara, Osho, Brahma, Ramatis, Gaia, Gilgamesh, Inanna, Asterote, o profeta Elias, São Francisco, São Jorge, o arcanjo Miguel, Chico Xavier e outras divindades e entidades iluminadas (ou não) estão neste Guia.
Diversas tábuas antigas são apresentadas para que saibamos a importância de haver juízes justos e governantes éticos; assim caminharemos em direção aos reinos de luz.
A salvação dos povos em uma Terra sem justiça é uma provação gigantesca em que poucos homens podem ser bem-sucedidos. A expiação é grande em terras pouco evoluídas. A restauração somente pode ocorrer quando houver aprendizado e consciência de que os erros são frutos da ignorância, inclusive a maldade.
A lição é aprendida pelo amor e pela dor. Deus não pune por prazer, educa pelo amor e pela dor. A escolha é livre.
A missão dos homens é criar um superávit cármico e amar a Deus de forma verdadeira, sentimental e nata. Deus tudo vê. E aquele que busca a justiça cosmológica está propiciando as condições de todos se igualarem na escala evolutiva e buscarem a salvação por meio da fé, da devoção e das obras desinteressadas.
Se o amor não é possível, pelo menos que trabalhemos para extirpar o ódio. Ninguém é obrigado a amar ninguém, mas já ajuda bastante se não houver rancor nem guerras.
Alguns bodisatvas estão encarnados para auxiliar no desenvolvimento e na iluminação de outros seres humanos. Sequer têm tempo para priorizar a própria iluminação, pois cuidam do bem-estar coletivo. Muitos se sacrificam para o bem maior de toda a população.
Faça o bem sem saber para quem! Emane amor, seja amor. Deus está em tudo. Deus criou tudo. Deus abraçou tudo e todos. Por isso, somos parte da criação. Somos parte do Divino. Somos parte de Deus. Conversamos com Deus. Nós O temos como nosso amigo íntimo e invisível. Somos elementos de Deus. Sabemos de nossa divindade. Conhecemos o poder do pensamento. Somos o que somos. Somos partes do todo que está em todo lugar. O Todo-Poderoso se transformou em tudo o que existe. Ele é tudo. Ele está em todos, e estamos juntos. Nós adoecemos quando nos esquecemos disso.
A caridade é o único caminho da redenção. Seja caridoso e desinteressado. Pratique o amor coletivo. Ore sem pedir. Agradeça sem nada pedir. Doe as coisas às quais tem apego. Sorria para a vida e seja feliz.
Maimônides apresentou no século XII a organização do Talmud. Apresentou 613 mandamentos organizados, analisados e estruturados para guiar a conduta moral dos judeus com base na Torá.
A justiça está sendo feita para que haja salvação. Acabou a era de Pilatos. Não se pode transferir a responsabilidade pelos próprios atos.
Como homem, estou contra este povo inconsciente e infeliz, e faria de tudo por salvar o inocente, mas, como um romano, acho que uma província como esta não passa de uma unidade do império romano, não nos competindo, a nós outros, o direito de interferência nos seus grandes problemas morais e presumindo, desta forma, que a responsabilidade desta morte deve caber agora, exclusivamente, a esta turba ignorante desesperada, e aos sacerdotes ambiciosos e egoístas que a dirigem (XAVIER,1939, p. 112).
Não fique perplexo com os atos dos outros. Aprimore os próprios. O caminho sagrado para o céu judaico-cristão e a jornada de iluminação de Buda podem levar o ser humano às esferas da luz divina.
1.16 Os 13 Princípios do Judaísmo de Maimônides
Maimônides elaborou os 13 Princípios do Judaísmo, que servem como um sumário de crenças judaicas diante do cristianismo e do islã e que tratam das virtudes, da fidelidade, da fé na eternidade e na vinda do Messias (MAIMÔNIDES, 2018). Os 13 Princípios do Judaísmo estão sumarizados adiante:
1. “Creio plenamente que Deus é o Criador e guia de todos os seres, ou seja, que só Ele fez, faz e fará tudo.” Este é o princípio fundamental do judaísmo e pilar da sabedoria antiga. A partir de Deus, tudo existiu. Ele é a essência, a origem e a vida. Essa é uma verdade absoluta, não somente religiosa. Deus é completamente independente de sua criação e responsável por manter tudo o que existe. Deus está em tudo e é considerado o lugar do mundo, mas não há um Deus nos reinos espirituais fora Dele e um universo físico sem Ele.
2. “Creio plenamente que o Criador é um e único; que não existe unidade de qualquer forma igual à Dele; e que somente Ele é nosso Deus, foi e será.” Ele sempre existiu, existe e existirá. Este princípio está embasado na Bíblia: “Escuta, Israel! O Eterno é nosso Deus, o Eterno é um só!” (Deuteronômio 6: 4). Este é outro princípio central do judaísmo: a existência e a unidade divinas caminham juntas. Por unicidade divina podemos entender que nada nem ninguém tem poder, a não ser Deus, que é o único mestre do Universo. O judaísmo não dá poderes a anjos, objetos, astrologia ou humanos.
3. “Creio plenamente que o Criador é incorpóreo e está isento de qualquer propriedade antropomórfica.” Conceitos físicos não se aplicam a Ele, e não há nada que se pareça com Ele.
4. “Creio plenamente que o Criador foi o primeiro (nada existiu antes Dele) e será o último (nada existirá depois Dele).” Este é o princípio da eternidade. Ninguém criou Deus. Quando Deus criou o Universo, também criou o espaço e o tempo. Os conceitos de matéria, espaço e tempo não se aplicam a Ele.
5. “Creio plenamente que o Criador é o único a quem é apropriado rezar, e que é proibido dirigir preces a qualquer outra entidade.” Não se deve orar para qualquer outra pessoa como intermediária entre os seres humanos e Deus, pois isso é pecado e idolatria, porém não é proibido pedir bênçãos a qualquer pessoa ou orações.
6. “Creio plenamente que todas as palavras dos profetas são verdadeiras.” O profeta é quem transmite as mensagens divinas para uma pessoa ou para as nações. Para o judeu, um profeta é quem opera milagres, vê o futuro e segue a Torá e seus mandamentos.
7. “Creio plenamente que a profecia de Moshe Rabeinu (Moisés) é verídica, e que ele foi o pai dos profetas, tanto dos que o precederam quanto dos que o sucederam.” Moisés participou das 10 pragas divinas e teve o poder de abrir o mar para libertar seu povo da escravidão. Foi também o emissário de Deus, seu primeiro grande secretário, o meio da revelação divina para a propagação dos 10 mandamentos.
8. “Creio plenamente que toda a Torá que agora possuímos foi dada pelo Criador a Moshe Rabeinu.” Ou seja, os cinco primeiros livros do Antigo Testamento foram revelados pelo próprio Deus ao profeta Moisés. Nenhum pergaminho contém qualquer erro.
9. “Creio plenamente que esta Torá não será modificada nem haverá outra outorgada pelo Criador.” A Torá tem 613 mandamentos, é permanente e imutável.
10. “Creio plenamente que o Criador conhece todos os atos e pensamentos dos seres humanos.” Eis que está escrito: “Ele forma os corações de todos e percebe todas as suas ações” (Salmos 33:15). Deus é onisciente e ilimitado. Julga com justiça, pois conhece todos os pensamentos, as palavras e os atos.
11. “Creio plenamente que o Criador recompensa aqueles que cumprem Seus mandamentos e pune os que transgridem Suas leis.” Deus aplicará a justiça nesta vida ou na próxima. Os atos de cada um influenciam em suas vidas após a morte. A maior recompensa divina é o mundo vindouro.
12. “Creio plenamente na vinda do Mashiach (Messias) e, embora ele possa demorar, aguardo todos os dias sua chegada.” Ele será responsável por uma era de paz.
13. “Creio plenamente que haverá a ressurreição dos mortos quando for a vontade do Criador.” Os bem-aventurados terão uma recompensa eterna.
A Oração do Médico – composta por Maimônides
Ó Deus, Tu formaste o corpo do homem com infinita bondade; Tu reuniste nele inumeráveis forças que trabalham incessantemente como tantos instrumentos, de modo a preservar em sua integridade essa linda casa que contém sua alma imortal, e essas forças agem com toda a ordem, concordância e harmonia imagináveis.
Todavia, se a fraqueza ou a paixão violenta perturbam tal harmonia, essas forças agem umas contra as outras, e o corpo retorna ao pó de onde veio. Tu enviaste ao homem teus mensageiros, as doenças que anunciam a aproximação do perigo, e ordenas que ele se prepare para superá-las.
A Eterna Providência designou-me para cuidar da vida e da saúde de tuas criaturas. Que o amor à minha arte aja em mim o tempo todo; que nunca a avareza, nem a mesquinhez, nem a sede pela glória ou por uma grande reputação estejam em minha mente, pois, inimigas da verdade e da filantropia, elas poderiam facilmente me enganar e me fazer esquecer meu elevado objetivo de fazer o bem a teus filhos.
Concede-me força de coração e de mente, para que ambos possam estar prontos a servir ricos e pobres, bons e perversos, amigos e inimigos, e que eu jamais enxergue em um paciente algo além de um irmão que sofre.
Se médicos mais instruídos do que eu desejarem me aconselhar, inspira-me com confiança e obediência para reconhecê-los, pois notável é o estudo da ciência. A ninguém é dado ver por si mesmo tudo aquilo que os outros veem.
Que eu seja moderado em tudo, exceto no conhecimento dessa ciência; quanto a isso, que eu seja insaciável.
Concede-me a força e a oportunidade de sempre corrigir o que já adquiri, sempre para ampliar seu domínio, pois o conhecimento é ilimitado e o espírito do homem também pode se ampliar infinitamente, todos os dias, para se enriquecer com novas aquisições.
Hoje ele pode descobrir seus erros de ontem e amanhã pode obter nova luz sobre aquilo que pensa hoje sobre si mesmo.
Deus, Tu me designaste para cuidar da vida e da morte de Tua criatura: aqui estou, pronto para minha vocação (MAIMÔNIDES apud JORGE FILHO, 2020, n.p.).
Fonte: Guia dos Perplexos: Os Princípios Sagrados – Maimônides II – Editora Novo Século
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