
Santo Onofre
O Homem do Deserto
O deserto do Egito parecia não ter fim.
Durante o dia, o sol queimava as pedras e fazia o ar tremular diante dos olhos.
À noite, o frio cortava a pele como uma lâmina invisível.
Poucos homens tinham coragem de atravessar aquelas terras silenciosas, onde não havia cidades, estradas ou abrigo.
Mas foi justamente para aquele lugar que o monge Pafúncio decidiu partir.
Ele vivia em um mosteiro simples da região da Tebaida.
Era conhecido pela oração constante, pelo jejum e pelo amor às Escrituras.
Ainda assim, havia dentro dele uma inquietação profunda.
Escutava frequentemente histórias sobre homens santos que abandonavam tudo para viver apenas para Deus, escondidos no coração do deserto.
Esses homens eram chamados eremitas.
Viviam sozinhos, longe das distrações do mundo, dedicando cada instante da vida à oração.
Muitos acreditavam que os anjos os visitavam e que suas almas brilhavam diante do céu.
Pafúncio desejava conhecer um deles.
Numa manhã silenciosa, depois de rezar diante de uma pequena cruz de madeira, ele colocou um pouco de pão em uma sacola, tomou seu cajado e partiu.
Não sabia exatamente para onde iria.
Apenas caminhava confiando que Deus guiaria seus passos.
Os primeiros dias foram suportáveis.
O vento soprava quente sobre a areia, mas ainda havia algumas pequenas fontes pelo caminho.
De vez em quando, ele encontrava vestígios de antigos viajantes ou pequenas cavernas usadas por monges peregrinos.
Depois de alguns dias, tudo mudou.
A paisagem tornou-se mais árida.
As montanhas de pedra substituíram as poucas plantas que existiam.
O silêncio era tão profundo que o som dos próprios passos parecia estranho.
Mesmo assim, Pafúncio continuou.
Durante vinte e um dias ele atravessou o deserto.
A comida acabou rapidamente.
A água tornou-se escassa.
Seus pés estavam feridos pelas pedras quentes, e o cansaço pesava sobre seus ombros como uma grande pedra.
Na tarde do vigésimo primeiro dia, já sem forças, caiu ao chão.
Seu corpo tremia de exaustão.
Os lábios estavam secos.
O coração batia lentamente.
Pela primeira vez, pensou que morreria ali, sozinho, no meio da imensidão do deserto.
Então ouviu passos.
Lentos.
Pesados.
Pafúncio levantou os olhos com dificuldade e viu uma figura se aproximando entre as pedras.
O homem parecia saído de outro tempo.
Era muito velho.
Seus cabelos brancos desciam até a cintura, e a barba longa quase tocava o chão.
Seu corpo estava coberto de pelos grossos, queimados pelo sol e pelo vento. Vestia apenas uma simples faixa feita de folhas secas.
Ao vê-lo, Pafúncio ficou aterrorizado.
Pensou tratar-se de uma aparição ou de algum espírito do deserto.
Reuniu as poucas forças que ainda possuía e tentou fugir.
Mas a voz do velho ecoou atrás dele.
— Não temas, irmão. Eu também sou servo de Deus.
Aquelas palavras trouxeram paz ao coração do monge.
Pafúncio voltou lentamente.
Quando se aproximou, percebeu que o olhar daquele homem era sereno.
Havia nele uma paz que jamais tinha visto em nenhum outro rosto humano.
O velho sorriu.
— Meu nome é Onofre.
Os dois sentaram-se sobre as pedras aquecidas pelo sol.
Durante algum tempo, permaneceram em silêncio, enquanto o vento atravessava o deserto como um sussurro invisível.
Depois, Onofre começou a contar sua história.
Disse que, muitos anos antes, vivera em um mosteiro.
Lá aprendera a rezar, jejuar e meditar nas palavras de Deus.
Mas, apesar da vida santa dos monges, sentia no coração um chamado ainda mais profundo.
Queria viver completamente sozinho com Deus.
Desejava imitar São João Batista, que habitou o deserto, e também o profeta Elias, que buscava o Senhor no silêncio das montanhas.
Então deixou tudo para trás.
Sem riquezas.
Sem companhia.
Sem promessas de retorno.
Entrou no deserto apenas com fé.
Os primeiros anos foram terríveis.
Onofre contou que sentiu fome inúmeras vezes.
Houve dias em que pensou que enlouqueceria de sede.
As noites eram frias, e o medo frequentemente tentava invadir seu coração.
Muitas vezes chorou sozinho.
Muitas vezes caiu de joelhos pedindo forças a Deus.
Mas nunca foi abandonado.
Próximo à caverna onde vivia, cresceu uma tamareira que lhe oferecia frutos.
Uma pequena fonte de água surgiu entre as pedras.
E, segundo ele, os anjos frequentemente o consolavam durante suas orações.
Enquanto escutava tudo aquilo, Pafúncio sentia o coração arder.
Nunca tinha encontrado alguém tão desapegado do mundo.
Onofre então o conduziu até sua morada.
Era uma pequena gruta escondida entre grandes rochas.
Não havia móveis, roupas ou qualquer objeto de valor.
Apenas algumas folhas secas espalhadas pelo chão e uma cruz simples feita de galhos.
Mesmo assim, o lugar parecia cheio de paz.
Os dois passaram horas conversando sobre Deus, sobre o céu e sobre a eternidade.
O sol lentamente começou a desaparecer atrás das montanhas do deserto, tingindo o horizonte com tons avermelhados.
Então aconteceu algo extraordinário.
Diante dos dois apareceu pão fresco e água limpa.
Pafúncio ficou sem palavras.
Onofre apenas abaixou a cabeça em oração.
— Deus jamais abandona aqueles que confiam nele — disse calmamente.
Depois da refeição, Pafúncio falou de seu desejo de permanecer ali.
Queria abandonar o mosteiro.
Queria viver como eremita.
Queria passar o resto da vida no silêncio do deserto.
Mas Onofre balançou a cabeça.
— Não foi para isso que Deus te trouxe aqui.
Pafúncio ficou confuso.
Então o velho continuou:
— O Senhor permitiu tua vinda porque minha partida está próxima.
Tu deverás contar aos homens aquilo que viste, para que saibam que Deus continua agindo entre os seus servos.
Naquela noite, quase não dormiram.
O céu estava coberto de estrelas, e o deserto parecia mergulhado em mistério.
Ao amanhecer, Onofre ajoelhou-se para rezar.
Seu rosto parecia iluminado por uma alegria diferente.
Segundo a tradição, um anjo apareceu trazendo a Sagrada Eucaristia para o santo eremita.
Depois de recebê-la, Onofre fechou os olhos lentamente.
E entregou sua alma a Deus.
Tudo aconteceu em profundo silêncio.
Nenhum vento soprou.
Nenhum som interrompeu aquele instante.
Pafúncio chorou.
Sentiu que estava diante da morte de um homem verdadeiramente santo.
Com enorme dificuldade, preparou uma sepultura simples no deserto e ali depositou o corpo de Onofre.
Depois permaneceu algum tempo ajoelhado diante da gruta vazia.
O deserto parecia diferente agora.
Mais silencioso.
Mais sagrado.
Dias depois, Pafúncio retornou à cidade.
Levava consigo não ouro, nem riquezas, mas uma história que atravessaria os séculos.
Ele escreveu tudo o que havia visto.
Contou sobre o homem que abandonou o mundo para viver apenas para Deus.
Falou de sua fé, de sua solidão e da paz que encontrou no coração do deserto.
E assim o nome de Santo Onofre começou a espalhar-se pelo Oriente cristão.
Muitos passaram a venerá-lo como exemplo de penitência, oração e confiança absoluta na providência divina.
Séculos se passaram.
Reinos desapareceram.
Impérios caíram.
Mas a memória do velho eremita do deserto continuou viva.
Até hoje, quando os fiéis recordam Santo Onofre, lembram-se de que existe uma riqueza maior do que qualquer tesouro da terra: a amizade com Deus.
Fonte: História de Santo Onofre – Santo do dia 12 de Junho
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