
Tabuleta do Dilúvio de Nineveh – British Museum – Iraque

Tabuleta do Dilúvio de Nineveh – British Museum – Iraque
Um jovem aprendiz de uma gráfica chamado George Smith, no século XIX, costumava visitar o British Museum durante o horário de almoço.
Fascinado pelas tabuletas de argila da antiga Mesopotâmia, ele aprendeu por conta própria a ler a escrita cuneiforme e acabou se tornando um dos maiores especialistas do tema em sua época.
Em 1872, ao estudar uma tabuleta encontrada em Nínive, Smith percebeu que havia decifrado algo de enorme importância histórica e religiosa.
A tabuleta, um fragmento de argila com cerca de quinze centímetros, continha um relato de um grande dilúvio: um homem recebe de seu deus a ordem de construir um barco para salvar sua família e os animais de uma inundação que destruiria a humanidade.
Smith reconheceu que essa narrativa era extremamente semelhante à história bíblica de Noé e da arca, porém muito mais antiga.
Essa descoberta colocou em questão a originalidade do relato do Antigo Testamento e levantou debates profundos sobre a relação entre os textos bíblicos, os mitos antigos e a noção de verdade histórica.
A Tabuleta do Dilúvio tem grande importância não só para a história das religiões, mas também para a história da literatura.
Embora a versão estudada por George Smith date do século VII a.C., o relato do Dilúvio foi originalmente escrito cerca de mil anos antes e posteriormente incorporado à Epopeia de Gilgamesh, considerada o primeiro grande poema épico da literatura mundial.
A obra narra a jornada de Gilgamesh em busca da imortalidade e do autoconhecimento, enfrentando perigos externos até chegar ao maior desafio: a aceitação de sua própria mortalidade.
O episódio do Dilúvio corresponde apenas ao décimo primeiro capítulo dessa epopeia.
Além de seu valor narrativo, a epopeia marca um momento decisivo na história da escrita.
No Oriente Médio, a escrita surgiu inicialmente como instrumento burocrático e contábil, enquanto as histórias eram transmitidas oralmente.
Com o registro escrito de narrativas como a de Gilgamesh, tornou-se possível fixar versões específicas dos relatos, preservar a intenção do autor e garantir sua transmissão sem alterações constantes.
A escrita transferiu a autoria da tradição coletiva para o indivíduo e permitiu a tradução dos textos para outras línguas, transformando essas histórias em literatura de alcance universal.
Com a Epopeia de Gilgamesh, simbolizada pela Tabuleta do Dilúvio estudada por George Smith, a escrita deixou de ser apenas um instrumento para registrar fatos práticos e passou a servir como meio de reflexão e investigação de ideias.
Essa transformação alterou a própria natureza da escrita e, ao mesmo tempo, a forma como os seres humanos se compreendem.
A literatura, a partir de obras como Gilgamesh, permite não só explorar os próprios pensamentos, mas também entrar no universo imaginativo de outras pessoas e culturas.
Essa capacidade de viver outras experiências por meio dos textos está no cerne da proposta do British Museum e de seus objetos: eles funcionam como um fio condutor da história da humanidade, oferecendo a possibilidade de acessar outras existências, outros modos de pensar e outras formas de ver o mundo.
Fonte: TABULETA DO DILÚVIO
Fonte: A Tábua do Dilúvio
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